21 de mar. de 2014

O Elefante na sala


Por Daniele Leão Freitas

“Um elefante incomoda muita gente, Dois elefantes incomodam muito mais!”
Essa música, que é cantarolada apenas quando alguém quer irritar outra pessoa, me fez refletir sobre alguns aspectos dela que eu não havia me atentado ainda. Ok, pode parecer bem besta e óbvio o que ela quer dizer, mas não é tão simples assim o que ela pode significar também.

Era uma vez um elefante, que diversas vezes na sua infância se sentiu deslocado, sem pertencer ao ambiente, e não era só fora de casa, mas muitas vezes dentro também (pensava às vezes que faria sentido se eu tivesse sido abduzido, sequestrado, ou adotado por aquela família de garças). Não entendia porque as coisas tinham que ser desse ou daquele jeito, ou porque outros o diziam para fazer algo quando agiam totalmente diferente, ou porque isso era bom e certo e aquilo era ruim e errado. 
A partir de uma certa idade, conheceu a palavra HIPOCRISIA, e depois de muitos anos se deu conta do quão novo era para tomar conhecimento daquela palavra estranha. Diversas vezes, presenciou situações que não faziam sentido para ele, pois aquela mesma garça dizia que aquilo não era correto. Mas ela podia fazer por ser uma garça adulta.  E isso não bastava para o elefante para explicar e justificar aquele ato. Após, incontáveis vezes, testemunhar inúmeras situações das mais diversas que continuavam a exemplificar o que aquela palavra estranha significava, o elefante se rebelou. Mas isso foi durante o início da adolescência... e “isso é só uma fase”, diziam, “ele está ‘aborrescente’, logo isso passa”... e isso “passou”... quer dizer, depois de um tempo, percebendo que as garças que precisavam escutar o que eu estava berrando com todas as forças, tentando dizer e mostrar que tudo aquilo não podia ser certo, só ouviram um barulho irritante, colocaram tampões nos ouvidos e esperaram passar. O elefante acabou ficando sem voz e, não importava o quão alto ele gritasse, ninguém queria saber do que se tratava.
O elefante estava na sala, mas ninguém queria olhar pra ele nos olhos. Era mais fácil levá-lo para o veterinário para descobrir o que havia de errado nele. O problema é que não adiantou, e outros problemas foram aparecendo, e outros médicos e terapeutas foram requisitados. Às vezes melhorava por um tempo, mas nunca era uma solução definitiva.
“Por que ele não muda? Por que ele não faz o que a gente gosta/manda? Por que ele simplesmente não é como eu quero que ela seja? Eu o amaria se ela fosse assim, como eu gostaria que fosse”.
E o elefante continuava por lá, talvez não conseguisse encarar e erguer mais a cabeça, mas a presença dele era constante. Ele fazia tudo o que era pedido, era melhor do que todos na escola de animais, até praticava esportes, mas ele não era o que queriam que ele fosse. Ele nunca seria pequeno, ele nunca deixaria de ser notado, ele não parava de chamar atenção, mas principalmente, ele não deixaria de ser o que é e muito menos de existir apenas porque esse era o desejo daqueles que coabitavam a sala.
Um dia, o elefante descobriu um espelho na sala, que estava escondido ali desde sempre. Tirando os panos que o tampavam, olhou o seu reflexo e viu pela primeira vez que era igual àquelas garças, e que elas eram iguais a ele!
Não entendeu então o motivo de tentarem mudar ele, se ele aparentava exatamente como os outros. Chamou todos para verem o espelho e ao verem o objeto recém descoberto todos cobriram os olhos. “O que você está fazendo??! Cubra-o e tire isso da nossa frente!” Sem entender, o elefante assim o fez, mas mais confuso ainda, balbuciou quase que para si mesmo apenas “Por quê? Ele é tão belo, mostra coisas tão belas em nós mesmos. Mostra como a gente realmente é parecido”. E mesmo falando baixinho, ouviram suas palavras e responderam para ele “Exatamente por isso que não gostamos nem de olhar para os seus olhos, no reflexo deles vemos como somos elefantes como você, quando preferimos ser garças”.

Muitas vezes nos sentimos como o elefante, rejeitado, afastado, renegado sem nenhuma razão aparente, quando as razões que nos fazem ser discriminados e “piores” que os outros são ser quem somos de verdade. Concepções como essas continuarão enquanto houver pessoas que desejem ser melhor que outras, e para tal precisam colocar aquelas que são diferentes delas como “menos” ou “piores”.

O elefante incomoda muita gente, quando não queremos aceitar olhar nos olhos dele e assumir que, mesmo sendo todos elefantes, a diferença e diversidade das rugas e marcas nas nossas peles grossas de elefante é o que faz cada um de nós belos à nossa maneira.


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