28 de abr. de 2014

Vivendo em comunidade e em grupos - Reflexão sobre flexibilidade e mudanças


Por Regina Bratfisch Simionato


“Cuidado com a força dos paradigmas! Até hoje dormimos à noite porque o homem das cavernas não tinha luz disponível e adormecia por não ter nada que fazer. “


Se observarmos atentamente nosso comportamento, veremos que temos o mesmo lugar em casa para assistir à televisão, o mesmo lugar à mesa do jantar, percorremos exatamente o mesmo trajeto para ir ao trabalho (ou à padaria, ou ao shopping, ou a outro lugar qualquer), e esses hábitos acabam por ser incorporados a nós. Isso não teria o menor problema, se as nossas ‘mesmices’ acabassem por aí. Acontece que, sem perceber, vamos generalizando nossas ‘mesmices’, nossos hábitos, nossa rigidez e nos tornamos irredutíveis diante da possibilidade de mudanças, ou seja, vamos nos tornando inflexíveis!
A imutabilidade limita nossa possibilidade de crescer, de acrescentar uma pitada de inovação ao habitual, uma pincelada de cor ao preto-e-branco da rotina diária.
Com a flexibilidade, nós crescemos e passamos a ter uma visão mais completa dos mesmos acontecimentos, a compreender também a visão do outro, e lucramos muito ao constatar que ‘o seu ângulo de visão pode e deve complementar o meu ângulo de visão’, e vice-versa.
Mudar não significa necessariamente abandonar o que estava sendo feito e sim acrescentar algo, substituir algo naquele todo que já estava sendo feito, inovar, aproveitar novas ideias e complementar as nossas próprias.
Quando pensamos em mudanças pessoais, internas, podemos observar que as pessoas só mudam de posturas ou atitudes quando algo as incomoda. O incômodo é um excelente estímulo para provocar mudanças.
 Ou seja, promovemos mudanças em nós ou no ambiente, desde as mais simples até as mais complexas, quando algo nos incomoda. Por isso é inútil tentarmos provocar mudanças no comportamento das outras pessoas.
Em se tratando de equipes de trabalho, a dificuldade individual de promover mudanças no comportamento resulta, muitas vezes, num fator complicador para o bom relacionamento entre as pessoas. Por isso, a flexibilidade interna deve ser estimulado e implementada, entendendo cada um, a partir daí, que o seu comportamento deve estar sincronizado com o todo.
As pessoas carregam, sem dúvida, características de personalidade muito distintas, mas devem se conscientizar de que mudanças pessoais são necessárias para que haja o bom funcionamento de um grupo. Mudanças pessoais são possíveis na medida em que haja o entendimento do conceito de flexibilidade interna e do benefício desse quesito em um todo.
O fato de um grupo não caminhar de maneira satisfatória deve ser compreendido como fator de incômodo pelas pessoas que o compõem, e por isso mesmo significar a mola propulsora para mudanças de comportamentos e posturas.
A prática mostra que as duas características pessoais que mais incomodam um grupo são, de um lado, o conformismo e, de outro, a competitividade agressiva.

Quando a flexibilidade interna das pessoas é estimulada, naturalmente essas características vão perdendo força e abrindo espaço para um relacionamento mais harmônico e consequentemente mais produtivo das equipes de trabalho. Isso por si só é uma grande mudança, cujos maiores beneficiados são os próprios integrantes do grupo.

23 de abr. de 2014

O Rio e as Nuvens


Por autor desconhecido

Era um bonito rio que encontrara seu caminho entre colinas, florestas e prados. Uma jubilosa corrente de água, sempre dançando e cantando enquanto descia do topo da montanha. Era muito jovem naquele tempo, e quando chegou na baixada diminuiu a velocidade. Estava pensando sobre ir até o oceano.
Um dia notou as nuvens. Nuvens de todos os tipos, cores e formas. Não fez mais nada durante aqueles dias, exceto perseguir as nuvens. Queria possuir uma nuvem, ter uma só para ele. Mas as nuvens flutuavam e viajavam pelo céu, e sempre mudando suas formas. Às vezes pareciam com um urso, outras vezes com um cavalo. Por causa dessa natureza das nuvens, o rio sofreu muito. Seu prazer, sua alegria, tinha se tornado em perseguir nuvens, uma depois da outra. E desesperada, raivosa e triste tornou-se sua vida.
Então, um dia, veio um vento forte e levou toras as nuvens do céu. O céu ficou completamente vazio.  O rio pensou que sua vida não tinha mais valor, não existiam mais quaisquer nuvens para perseguir. Quis morrer.
-Se não existe nenhuma nuvem, para que eu devo viver?
Mas como um rio pode tirar sua própria vida?
Naquela noite, o tio teve oportunidade de voltar-se para si mesmo pela primeira vez. Ele tinha corrido por tanto tempo atrás de algo fora de si próprio, que com isso nunca tinha se visto. Naquela noite, teve a primeira oportunidade de se ouvir: os sons da água colidindo contra as margens. Ao escutar sua própria voz, descobriu algo bastante importante: percebeu que o que vinha procurando estava dentro de si mesmo.
Descobriu que as nuvens não são nada além de água. As nuvens nascem água e voltam à água. E descobriu que também era água.
Na manhã seguinte, quando o Sol brilhava no céu, descobriu algo novo e muito bonito. Viu o céu pela primeira vez. Nunca havia notado antes. Tinha estado interessado apenas nas nuvens, e deixara de perceber o céu, que é a casa de todas as nuvens.
Nuvens são mutáveis e inconstantes, mas o céu é estável.
Só então percebeu o imenso céu que tinha estado em seu coração desde o início. Essa percepção trouxe-lhe paz e felicidade. Vendo o vasto e maravilhoso céu, soube que sua paz e sua estabilidade nunca mais seriam perdidas.
Naquela tarde as nuvens voltaram, mas dessa vez o rio não quis possuir nenhuma delas. Podia admirar a beleza de cada nuvem e podia sorrir para todas elas.
Quando uma nuvem se aproximava, saudava-a com carinho e respeito. Quando a nuvem desejava ir embora, acenava feliz e com ternura. Paz e harmonia existiam entre o rio e as nuvens.
Naquela noite, outra coisa maravilhosa aconteceu. 
Ao abrir completamente o seu coração para o céu da noite, recebeu a imagem da lua cheia – bonita, redonda, como uma joia rara – dentro de si. Jamais imaginara poder receber imagem tão bela. A fresca e bela lua viajava no céu.
Quando a mente – rio da vida – está livre, a imagem da bela lua reflete em cada um. Assim estava a mente do rio naquele momento.
Recebeu a imagem daquela lua em seu coração, e a água, as nuvens e a lua deram-se as mãos e caminharam vagarosamente em direção ao oceano.

Assim somos nós... Podemos perceber as belas coisas que existem nos outros e podemos nos voltar para nós mesmo, apreciar nosso coração e nosso sorriso... Enfim, apreciar-nos. 

16 de abr. de 2014

A parábola da Horta - Uma reflexão do crescimento e dos relacionamentos humanos

 Por Daniele Leão Freitas

                Água, Sol e Adubo. São as únicas necessidades para se plantar, além de boas sementes e espaço suficiente para que as plantas cresçam. Cada semente carrega em si todas as informações necessárias para se transformar na planta que ela deve ser e sabe ainda que deve se fixar no solo, ao mesmo tempo em que se direciona ao céu para se desenvolver.
                Do solo ela vai retirando seus nutrientes, abastecendo-se a cada chuva com o mágico líquido que a faz crescer, e a partir do momento que rompe a luz, deixando o ambiente escondidinho e protegido para encontrar o Sol, que logo será sua razão e sua fonte de alimento também.
                Aquele que se dispõe a auxiliar a pequena semente no seu caminho, tirando de perto dela ervas daninhas e quaisquer outras pragas que impeçam que os raios solares cheguem até ela, pelo menos enquanto ela se fortalece, torna-se responsável também por aquela planta cumprir o seu destino.
                No entanto, não é possível regar a planta esperando o dia que ela devolverá toda a água ali despejada. Podas são necessárias à medida que seus galhos vão crescendo desordenadamente, mas na medida certa, se não, é possível distorcer a natureza e beleza de toda a planta, deixando cicatrizes e marcas para sempre, que muitas vezes é praticamente a mesma coisa de impedir a planta de receber água só por ser grande, ostentosa, onerosa ou poderosa.
Também não é viável almejar que nasçam cerejas de uma laranjeira. A função e a missão daquela árvore já estavam presentes nela desde quando era uma semente pequena e indefesa. Querer mudar o seu curso apenas por ser o desejo daquele que a ajudou e a regou quando precisou não o dá o direito, muito menos o poder, de alterar a essência inerente àquela vida.

                Mas caso queira vê-la bela e exuberante na sua plena expressão natural, além do cuidado da proteção e atenção às suas folhas jovens ao retirar aquelas já secas, a planta receberá os melhores nutrientes de todos, os quais nem o Sol, o solo ou a chuva jamais poderão fornecer a ela: Esperança e Amor. Com a esperança a planta poderá se a melhor possível sempre, e com o Amor ela saberá que não importa quantos frutos ou flores ela dê, e será sempre amada.

8 de abr. de 2014

Parábola dos potes

Autor Desconhecido


Havia dois grandes e belos potes que, num canto do quintal, falavam entre si:
                -Ah, que tédio! Que vida! Viver aqui, exposto a tudo – sol, vento, chuva, calor... Por mais que eu me proteja, como sobreviverei? Aqui, estou perfeitamente tampado, lacrado, para me proteger, e ainda assim me sinto ameaçado, vazio. Não vejo graça em estar aqui.
                Tranquilamente, retrucava o outro pote:
                -Veja, eu me encontro aqui, aberto, nada me protege a boca, ou melhor, o meu interior. Cai a chuva, eu a recebo. Vem o vento, eu o sinto vem dentro de mim. Vem o sol e me leva as gotinhas que retornam para o céu. E nem por isso me sinto ameaçado...
                -Ora, grande vantagem! Seu interior não guarda mais a cor original como o meu, sua cor é cada vez mais diferente. Você não é mais o mesmo...
                -Sim, e isso me alegra! O meu interior transforma-se a cada dia, à medida que novas coisas me penetram. Posso sentir cada criatura que me visita e cada uma delas deixa algo de si para mim, assim como deixo para ela, pouco a pouco, a minha cor.
                -É, mas você não tem mais paz, a todo instante você é solicitado, carregam você todo dia para levar água, ao passo que eu permaneço no meu lugar. Ninguém me incomoda, quando se aproximam, já sei que é a você que eles querem.
                -Sim, se me solicitam é porque tenho algo a dar, e o que dou não é diferente do que você pode dar. Deixo-me encher pela água da chuva, que cai tanto sobre mim quanto sobre você. Encho-me até transbordar. Outros seres precisam dessa água e eu os sirvo. Esvazio-me e deixo-me encher de novo; assim é minha vida: um constante dar e receber. Enquanto isso, desinstalo-me, saio do meu pequeno mundo e vou ao encontro de outros mundos. Já conheci potes diversos, animais, pessoas, tantas coisas e seres de outros mundos! E cada vez faz-me perceber ainda mais o pote que sou.
                -Não sei... Se continuar assim, brevemente você será um pote quebrado, gasto, e, então, de que adiantará tudo isso?
                -Creio que se me desgasto a cada dia é para ser possível levar vida a outros seres. Vejo que o mais importante não é ser um pote intacto tal como fui feito, mas um pote de valor como estou me tornando. Se vou durar pouco tempo, isso não importa; se o pouco que eu viver tiver sentido, trouxer-me alegrias e fizer-me sentir cada vez mais o que é ser pote, isso me basta...
                Já era tarde, o Sol já havia se escondido, quando os dois se cansaram de falar. O pote aberto, sentindo-se cansado, logo adormeceu, o que não foi possível para o outro pote; ele não conseguia dormir, pois algumas palavras ditas pelo companheiro vinham-lhe à mente e não o deixavam em paz.
(...) Transformar o interior... Paz... Deixar-se encher... Deixar algo de si... Ser pote... Desinstala-se... Ser feliz... Ser útil... Levar alegria... Paciência... Humildade... Mansidão... Comprometimento!

Na manhã seguinte, enquanto um pote acordava, o outro dormia, porque fora grande o seu esforço para tirar a tampa que o acompanhara por tanto tempo.