8 de abr. de 2014

Parábola dos potes

Autor Desconhecido


Havia dois grandes e belos potes que, num canto do quintal, falavam entre si:
                -Ah, que tédio! Que vida! Viver aqui, exposto a tudo – sol, vento, chuva, calor... Por mais que eu me proteja, como sobreviverei? Aqui, estou perfeitamente tampado, lacrado, para me proteger, e ainda assim me sinto ameaçado, vazio. Não vejo graça em estar aqui.
                Tranquilamente, retrucava o outro pote:
                -Veja, eu me encontro aqui, aberto, nada me protege a boca, ou melhor, o meu interior. Cai a chuva, eu a recebo. Vem o vento, eu o sinto vem dentro de mim. Vem o sol e me leva as gotinhas que retornam para o céu. E nem por isso me sinto ameaçado...
                -Ora, grande vantagem! Seu interior não guarda mais a cor original como o meu, sua cor é cada vez mais diferente. Você não é mais o mesmo...
                -Sim, e isso me alegra! O meu interior transforma-se a cada dia, à medida que novas coisas me penetram. Posso sentir cada criatura que me visita e cada uma delas deixa algo de si para mim, assim como deixo para ela, pouco a pouco, a minha cor.
                -É, mas você não tem mais paz, a todo instante você é solicitado, carregam você todo dia para levar água, ao passo que eu permaneço no meu lugar. Ninguém me incomoda, quando se aproximam, já sei que é a você que eles querem.
                -Sim, se me solicitam é porque tenho algo a dar, e o que dou não é diferente do que você pode dar. Deixo-me encher pela água da chuva, que cai tanto sobre mim quanto sobre você. Encho-me até transbordar. Outros seres precisam dessa água e eu os sirvo. Esvazio-me e deixo-me encher de novo; assim é minha vida: um constante dar e receber. Enquanto isso, desinstalo-me, saio do meu pequeno mundo e vou ao encontro de outros mundos. Já conheci potes diversos, animais, pessoas, tantas coisas e seres de outros mundos! E cada vez faz-me perceber ainda mais o pote que sou.
                -Não sei... Se continuar assim, brevemente você será um pote quebrado, gasto, e, então, de que adiantará tudo isso?
                -Creio que se me desgasto a cada dia é para ser possível levar vida a outros seres. Vejo que o mais importante não é ser um pote intacto tal como fui feito, mas um pote de valor como estou me tornando. Se vou durar pouco tempo, isso não importa; se o pouco que eu viver tiver sentido, trouxer-me alegrias e fizer-me sentir cada vez mais o que é ser pote, isso me basta...
                Já era tarde, o Sol já havia se escondido, quando os dois se cansaram de falar. O pote aberto, sentindo-se cansado, logo adormeceu, o que não foi possível para o outro pote; ele não conseguia dormir, pois algumas palavras ditas pelo companheiro vinham-lhe à mente e não o deixavam em paz.
(...) Transformar o interior... Paz... Deixar-se encher... Deixar algo de si... Ser pote... Desinstala-se... Ser feliz... Ser útil... Levar alegria... Paciência... Humildade... Mansidão... Comprometimento!

Na manhã seguinte, enquanto um pote acordava, o outro dormia, porque fora grande o seu esforço para tirar a tampa que o acompanhara por tanto tempo. 

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