22 de jan. de 2014

A relatividade da inteligência


Por Daniele Leão Freitas

            Quando eu era mais nova, não sabia o que queria fazer quando crescesse. Sempre tive facilidade e gosto pelas exatas, mas ia bem em todas as disciplinas do colégio também. Decidi então que continuaria a estudar de tudo, me esforçando ao máximo para todas as matérias, para que quando chegasse a hora de escolher uma profissão, eu teria a base de qualquer coisa do que aquilo precisasse que eu tivesse um bom conhecimento prévio. Eu tinha 8 anos de idade quando tomei essa decisão. Eu não contei para meus pais nem nenhum coleguinha meu me influenciou a tomar essa decisão, simplesmente achei que estaria facilitando a vida para a minha futura versão poder escolher com maior tranquilidade, dentre todas as opções que eu teria, não queria ter de rejeitar uma profissão por "não ser bom nessa ou naquela matéria".
            Um tanto quanto estranho uma criança pensar assim? Com certeza. Mas foi o que aconteceu. E num piscar de olhos me encontrei com 18 anos (ok, não foi em um piscar de olhos na época, pareceu mais que uma eternidade se passou até chegar aos 18 anos, mas enfim) e encontrei-me no bendito dilema do que escolher para fazer na faculdade e de qual profissão eu gostaria de exercer. Sem ter nenhuma ideia do que eu gostaria de fazer com a minha vida, decidi prestar vestibular para Medicina, pois pelo menos eu teria mais tempo para pensar e ninguém me reprovaria por eu não passar por ser muito concorrido e difícil de passar (prestei apenas para a UNB). Nos 6 meses seguintes fiz cursinho pré-vestibular e me deparei com uma conclusão desconcertante: eu gostaria de fazer aquilo para sempre. Não, eu não sou louca e gostava da tensão que todos que estudam para passar no vestibular sentem. Mas por alguma razão eu não sentia tanta tensão quanto prazer de estudar todas as disciplinas ao mesmo tempo, pulava de História Brasileira para Biologia Celular, de Trigonometria para Geografia dos estados, de Literatura para Geometria, e aquilo era uma delícia para mim.
Descobri que no fim das contas, o que aquela menina de 8 anos decidiu por mim me causou um leve problema: eu não tinha ideia do que cursar na faculdade porque não tinha o que eu não gostaria de estudar mais profundamente, eu queria poder escolher um curso que tivesse todos os cursos e matérias! Mas isso não adiantou muito para me ajudar a escolher um curso apenas na hora de fazer a inscrição do vestibular novamente. E ao fazer o vestibular para o ITA apenas para testar (sim, a loucura da pessoa chegou a esse nível), me surpreendi ao me ver me deliciando ao fazer os exercícios das provas de matemática e química. E aquilo me fez pensar que eu não era muito normal e que talvez eu devesse tentar fazer algum curso que envolvesse uma dessas disciplinas, pois eu gostava de fazer aquilo. E não, eu não passei para o ITA, rsrs.
Fazendo um sistema de escolha por exclusão, acabei decidindo que faria algum curso de exatas, e acabei em dúvida entre Estatística e Química. E como achei que com a Estatística eu teria a possibilidade de continuar estudando e pesquisando sobre as diversas disciplinas que estudava no colégio e muito mais, decidi por ela. No primeiro vestibular que prestei para Estatística eu passei, e após o primeiro mês de aulas veio a primeira greve. Após 3 meses de greve, decidi viajar, pois era a semana do meu aniversário em pleno verão, e as aulas voltaram justamente nessa semana. Ao retornar para as aulas, me vi numa situação inusitada e pela primeira vez me senti totalmente perdida em meio às informações e ao que eu precisaria aprender. Aquela matemática não chegava a ser nem perto da diversão que sentia no colégio ao resolver um problema, mas sim um problema grego que não fazia o menor sentido na minha cabeça. Sem conseguir acompanhar o que o professor queria que eu aprendesse sozinha e na marra, pois não há um sistema muito elaborado de ensino no Ensino Superior de Exatas. É simples assim: você terá algumas provas sobre alguma coisa que o professor decidir colocar nela, e muitas vezes o professor mais atrapalha do que ajuda, então você precisa sentar e ler todos os livros possíveis sobre o assunto, pois não tem um livro específico que o professor siga, e ser autodidata o suficiente para entender e aprender sobre aquilo.
            Não me leve por mal. Eu sempre tive facilidade de aprendizado, mas nunca fui vidente para adivinhar sobre o que o professor estava tentando ensinar. Pois era assim que eu me via nos anfiteatros da UnB. Perdidinha como nunca estive na vida. E pela primeira vez na vida bombei em uma matéria. Mas não bastasse isso, essa era uma matéria que era pré-requisito para praticamente todas as outras matérias do curso. E no semestre seguinte, entre outras greves e professores que não deveriam estar ali só por enfeite, reprovei nela de novo. Pela terceira vez fazendo essa matéria, um professor chinês, que não falava praticamente nada de português definiu um livro, as páginas de exercícios e a cada semana corrigia aqueles exercícios colocando os desenvolvimentos no quadro e dava as provas de acordo com o que ele apenas havia cobrado nos exercícios. E eu passei com 10 (ou SS no sistema da UnB).
            Depois de me achar a pessoa mais burra do Universo, senti novamente que poderia ser boa naquilo. Mas a aleatoriedade dos professores escolherem da cachola deles o que dariam na aula e cobrarem outras coisas totalmente diferentes nas provas me fizeram reprovar em mais algumas matérias dali pra frente.
            Muito frustrada e um tanto quanto deprimida já, tendo acompanhamento psicológico e já nem passando perto da universidade, abandonando o curso de tão desestimulada estava com o curso eu descobri a Naturologia. E isso me fez pensar em algumas coisas e pensar no que me fez chegar até ali. Eu não tinha deixado de gostar de matemática. A matemática do colégio ainda me dá prazer até hoje. Mas as greves, a incoerência entre o que era dado em sala e o que era cobrado nas provas, o pouco preparo e a nítida insatisfação com remuneração e outras coisas mais dos professores universitários, me fizeram não só pensar que eu não gostava mais de matemática, mas me fizeram pensar que eu era burra e incapaz. É claro que depois de um certo tempo eu nem me dava ao trabalho de tentar entender o que estava acontecendo, pois não conseguia acompanhar mais nada daquilo mesmo.
            Após toda a frustração e a auto deterioração passar, comecei a refletir sobre o seguinte aspecto: eu sempre fui boa em matemática, e gostava de ser boa em matemática. Mas ser boa em algo não é e não pode ser o único argumento para se escolher uma profissão para seguir carreira. Pessoas que não eram muito boas em muitas coisas no colégio podem sim se tornar Médicos e Advogados, pois se o coração delas estiver nisso, elas serão excelentes no que forem fazer. Fazer algo porque ser bom em algo não te faz ser excelente naquilo, mas muitas vezes te faz ser apenas bom pra mediano em algo. Descobri que para ser excelente não é necessário ser o mais inteligente, o mais preparado, mas sim o mais dedicado, pois é onde o seu coração está e não há limite que impeça o seu coração de batalhar por algo que o faz bater. Pois é o que a sua alma clama por fazer. Por isso não há desculpas nem dificuldades para alcançar aquilo, o que foi o contrário do que aconteceu comigo ao cursar Estatística. Tudo era um obstáculo muito além da minha capacidade, mas não era para muitos outros. Muitos outros se formaram e batalharam por algo que valia a pena para eles.
            Não era a minha luta. Minha luta foi outra, em outras terras, em outros ares, ares esses que nunca imaginei que enfrentaria na minha vida, mas as tempestades se fizeram brisas, pois o meu coração estava na Naturologia.
            E tudo vale a pena quando a alma não é pequena.



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